Em 1946, a Universidade da Pensilvânia apresentou ao Exército americano o ENIAC, o primeiro computador digital eletrônico de grande escala. A máquina era um monstro digital: pesava 30 toneladas, ocupava uma sala inteira de 150 metros quadrados e exigia uma engenharia brutal apenas para calcular tabelas de tiro de artilharia. Duas décadas depois, o Departamento de Defesa dos EUA financiava a ARPANET, a rede militar e acadêmica que lançaria as fundações da internet. Naquela época, computação era sinônimo de Estado, soberania e grandes laboratórios públicos.
Avance o relógio para os dias de hoje. Aquelas toneladas de metal e os cabos governamentais encolheram até caber na palma da nossa mão. No entanto, a grande transformação não foi o tamanho, mas o dono. Quase tudo o que fazemos online hoje — do mapa que nos guia na rua às mensagens que trocamos, das compras diárias ao entretenimento que nos distrai antes de dormir — passa pelo filtro de servidores privados.
É aqui que entram as chamadas Big Techs. A expressão pode parecer vaga, mas define perfeitamente as corporações que se tornaram as proprietárias da nossa infraestrutura social. Falar disso não é olhar apenas para o Vale do Silício com Google, Apple, Microsoft, Amazon e Meta; a história hoje tem um peso global com o capítulo chinês liderado por ByteDance, Tencent e Alibaba.
Essas empresas deixaram de ser meras fornecedoras de aparelhos e softwares. Elas se transformaram em centros de poder político, econômico e cultural que registram nossos passos e decidem o que ganha visibilidade no mundo. Como saímos daquela computação pública e militar para um cenário onde meia dúzia de empresas privadas dita as regras da sociedade? A resposta exige que a gente olhe para trás e desmonte um dos mitos mais persistentes da tecnologia.
Computadores, guerra e investimento público
A indústria da tecnologia evoluiu a partir da união entre ciência, capital privado e subsídios estatais. Marcos como a criação do transistor (1947, nos Bell Labs) e dos circuitos integrados (fim dos anos 1950) baratearam e miniaturizaram os computadores. Durante a Guerra Fria, esse mercado ganhou escala graças aos contratos de compra fechados pelo Pentágono e pela NASA, que consolidaram o setor de semicondutores nos Estados Unidos.