02/11/2026 · História Geral

Por que as eleições nos Estados Unidos acontecem sempre em uma terça-feira?

A data das eleições dos Estados Unidos foi fixada em 1845 para uma sociedade de fazendeiros, feiras e viagens de carroça.

Nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, os americanos vão às urnas para as eleições de meio de mandato, as chamadas midterm elections. Na disputa estão as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, equivalente à nossa Câmara dos Deputados, e 33 das 100 cadeiras regulares do Senado, aproximadamente um terço da casa. Também serão escolhidos governadores e outros representantes em diversos estados.

Mas há uma particularidade que chama a atenção de quem acompanha as eleições brasileiras: nos Estados Unidos, o dia oficial da votação é uma terça-feira, um dia comum de trabalho. E não é necessário que todos os eleitores compareçam às urnas nessa data. O sistema americano permite diferentes modalidades de votação antecipada, incluindo o voto pelo correio, cujas regras variam de estado para estado.

Para quem vive no Brasil, onde as eleições gerais acontecem aos domingos, a pergunta parece inevitável: por que terça-feira? A resposta está na história dos Estados Unidos do século XIX.

Uma lei para um país de fazendeiros

Antes de 1845, os estados americanos podiam escolher a data da eleição presidencial dentro de um período de 34 dias anterior à reunião do Colégio Eleitoral. Isso significava que alguns estados votavam semanas antes de outros.

O sistema criava problemas. Os resultados das primeiras votações podiam influenciar os eleitores dos estados que ainda não haviam ido às urnas. Além disso, a diferença de datas abria oportunidades para fraudes, como o deslocamento de eleitores para estados onde a votação ainda não havia ocorrido, com o objetivo de votar mais de uma vez. Acusações desse tipo ganharam força após a eleição de 1840.

Em 1845, o Congresso estabeleceu uma data nacional para a escolha dos integrantes do Colégio Eleitoral: a terça-feira seguinte à primeira segunda-feira de novembro. A fórmula parece escrita por alguém que desejava transformar uma frase simples em questão de concurso, afinal, porque não dizer simplesmente, "na primeira terça-feira de novembro"? Veremos adiante, mas isso respondia às preocupações políticas e às condições sociais dos Estados Unidos daquela época. A primeira eleição presidencial realizada sob a nova regra aconteceu em 1848.

O país tinha aproximadamente 17 milhões de habitantes, segundo o recenseamento de 1840, e uma população predominantemente rural. A economia, os transportes e a vida comunitária seguiam o calendário agrícola. Novembro vinha depois das principais colheitas e antes da chegada do inverno mais rigoroso em boa parte do território. Era, portanto, um período conveniente para interromper o trabalho e viajar.

O domingo estava associado ao culto religioso entre grande parte da população cristã. Como muitos eleitores precisavam percorrer longas distâncias até o local de votação, a segunda-feira poderia ser utilizada para a viagem, feita a cavalo ou de carroça. A terça-feira permitia que a votação ocorresse no dia seguinte. A quarta-feira, por sua vez, era tradicionalmente dia de feira em muitas localidades rurais, ou seja, a terça-feira seria um intervalo conveniente entre a viagem e as feiras locais.

Essa é a explicação histórica mais difundida para a escolha desse dia. Ela retrata um mundo no qual deslocamentos podiam levar horas ou um dia inteiro, as estradas dependiam das condições climáticas e o comparecimento eleitoral precisava caber entre a colheita, a igreja e as atividades comerciais.

Há ainda uma curiosidade na formulação da lei. Por que estabelecer a terça-feira seguinte à primeira segunda-feira, em vez de simplesmente determinar a primeira terça-feira de novembro?

Duas explicações costumam aparecer. A primeira é que a fórmula impedia que a eleição acontecesse em 1º de novembro, Dia de Todos os Santos, uma data importante no calendário cristão. A segunda relaciona a regra ao costume de comerciantes fecharem as contas do mês justamente no primeiro dia. São explicações tradicionais, embora não seja possível atribuir a elas, com absoluta segurança, o peso decisivo na elaboração da lei.

Da eleição presidencial às eleições de meio de mandato

A regra de 1845 tratava especificamente da escolha dos integrantes do Colégio Eleitoral, responsáveis pela eleição do presidente e do vice-presidente. Em 1872, o Congresso estendeu a data uniforme às eleições para a Câmara dos Representantes, determinando que a regra começasse a valer em 1876.

A Câmara inteira é renovada porque a Constituição americana de 1787 estabeleceu mandatos de apenas dois anos para seus representantes. A intenção era manter essa casa legislativa sob avaliação frequente dos eleitores.

Como a eleição presidencial acontece a cada quatro anos, existe uma eleição para a Câmara no meio de cada mandato presidencial. Daí vem o nome midterm election, ou eleição de meio de mandato.

O Senado segue outro ritmo. Cada senador cumpre um mandato de seis anos, e as cadeiras são divididas em três grupos, renovados alternadamente. A cada dois anos, aproximadamente um terço do Senado entra em disputa. Esse sistema evita a renovação completa da casa em uma única votação e procura assegurar maior continuidade institucional.

Originalmente, os senadores não eram escolhidos diretamente pelos eleitores. A Constituição determinava que fossem eleitos pelos legislativos estaduais. A 17ª Emenda, ratificada em 1913, instituiu a eleição direta para o Senado. Algumas unidades da federação já experimentavam mecanismos de escolha popular, mas 1914 marcou a primeira eleição geral em que todas as disputas senatoriais passaram a ocorrer pelo voto direto. A legislação federal também alinhou essas eleições ao calendário das eleições para a Câmara.

O calendário revela uma combinação característica do federalismo americano. Os estados administram grande parte do processo: registro dos eleitores, modalidades de votação, organização das seções e apuração. A legislação federal, porém, estabelece a data das eleições para os cargos nacionais. Há uma regra comum aplicada em todo o país, embora os cinquenta estados mantenham diferenças importantes na organização do processo eleitoral.

A carroça se aposentou, o calendário não

Os Estados Unidos de 2026 guardam pouca semelhança com o país rural de 1845. A população vive majoritariamente em áreas urbanas, as viagens deixaram de depender de cavalos e as feiras de quarta-feira perderam a capacidade de organizar a semana nacional. A terça-feira eleitoral, contudo, permaneceu.

O historiador francês Fernand Braudel chamou atenção para a ideia de longa duração: determinadas estruturas sociais e formas de organização sobrevivem a diferentes gerações, mesmo quando as circunstâncias que lhes deram origem já desapareceram. A ideia ajuda a compreender o calendário americano. A tecnologia, o trabalho e as cidades mudaram profundamente; a instituição criada para organizar a votação atravessou quase dois séculos.

Em 1845, o eleitor imaginado pelas instituições americanas era um homem. A escravidão ainda existia, mulheres estavam excluídas do processo político e homens negros enfrentavam restrições ou proibições ao voto em diversos estados. A cidadania política era profundamente limitada por critérios de gênero, raça e, em determinados lugares e períodos, propriedade.

Na história eleitoral americana, houve avanços, retrocessos, resistências e lutas. A terça-feira, no entanto, seguiu incólume em meio a tudo isso.

Para quem estuda e ensina

Constituição americana de 1787 e federalismo: revise a divisão de competências entre União e estados, os mandatos de dois anos na Câmara, os seis anos no Senado e a renovação escalonada dos senadores.

Estados Unidos e Brasil: compare a Constituição americana de 1787 com a Constituição brasileira de 1891, especialmente presidencialismo, federalismo, separação dos poderes e o nome Estados Unidos do Brasil.

Ampliação do direito ao voto: nos Estados Unidos, relacione a 15ª Emenda, de 1870, à proibição de discriminação racial no sufrágio; a 19ª Emenda, de 1920, ao voto feminino; e a Lei dos Direitos de Voto, de 1965, ao combate às barreiras racistas. Compare com o reconhecimento do voto feminino no Brasil, em 1932, e a inclusão dos analfabetos no eleitorado, em 1985.


Ideia para a sala de aula: pergunte aos alunos em qual dia da semana eles marcariam uma eleição e quais critérios utilizariam. Depois, compare as respostas com as condições sociais dos Estados Unidos em 1845 e com a escolha brasileira pelo domingo. A atividade permite discutir como as instituições políticas são influenciadas pelas condições econômicas, culturais e sociais de cada época.


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