Uma enchente pode durar algumas horas. A distribuição dos prejuízos, porém, foi construída durante décadas ou séculos. A questão 35 da Prova Nacional Docente (PND) 2026 parte dessa diferença entre o tempo do desastre e o tempo das desigualdades para cobrar um conteúdo pedagógico: a identificação de uma metodologia ativa.
Este é o segundo texto da série Questão comentada, na qual resolvemos itens da PND de História sem tratar o gabarito como jogo de adivinhação. A alternativa correta tem pistas pedagógicas, mas também carrega uma forma histórica de olhar para o território.
A questão
Fonte: Prova Nacional Docente 2026, História (licenciatura), caderno tipo 1, questão 35. Gabarito preliminar do Inep: A.
O racismo ambiental manifesta-se quando populações racializadas e socialmente vulnerabilizadas são sistematicamente expostas a maiores riscos ambientais, resultado de processos históricos de desigualdade, exclusão territorial e hierarquização social. A compreensão desse fenômeno exige uma análise de longa duração, capaz de identificar permanências nas estruturas de poder e mudanças nas formas de exploração do espaço e da natureza.
ACSELRAD, H. et al. Justiça ambiental e cidadania. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004 (adaptado).
Os professores de Ciências e de História organizaram uma sequência didática para analisar os impactos socioambientais do avanço do capitalismo com uma turma de 9º ano do Ensino Fundamental. Após a leitura orientada do texto, os estudantes foram convidados a construir, em equipes, um mapa do bairro, identificando áreas com maior presença de lixo, enchentes e poluição. Em seguida, elaboraram questões sobre a relação entre produção, consumo e meio ambiente com base no conceito de racismo ambiental.
Nessa atividade, a metodologia ativa utilizada pelos professores é o(a)
- A) Aprendizagem Baseada em Projetos, pois os estudantes investigam o território, articulando análise histórica e interpretação das desigualdades ambientais como desafios estruturais dos modos de produção e consumo.
- B) Estudo Dirigido, pois os estudantes organizam respostas orientadas considerando o texto, sistematizando conceitos sobre sustentabilidade, produção e consumo para consolidar definições ambientais.
- C) Sala de Aula Invertida, pois os estudantes realizam a leitura prévia do texto, identificando informações do bairro para divulgar impactos ambientais relacionados ao consumo e às dinâmicas urbanas atuais.
- D) Painel Coletivo, pois os estudantes participam de uma dinâmica em grupo sobre poluição e consumo, discutindo desafios ambientais do território como garantia de solução para o espaço investigado.
O que a banca quis avaliar?
O núcleo pedagógico da questão está no reconhecimento de uma metodologia ativa a partir de uma situação concreta de ensino. A banca não pergunta diretamente pela definição de Aprendizagem Baseada em Projetos. Ela descreve o que os estudantes fazem e espera que o candidato identifique o método.
Os verbos são decisivos: os alunos constroem um mapa, identificam problemas do território, trabalham em equipes e elaboram novas questões. Eles participam da investigação e produzem um resultado. O professor organiza a sequência, oferece referências e orienta o trabalho, mas não ocupa sozinho o centro da atividade.
O texto-base, por sua vez, pertence ao campo da História e das Ciências Sociais. Ele apresenta o racismo ambiental como resultado de processos históricos e menciona a longa duração. Assim, a questão combina dois repertórios que aparecem em concursos para professor: didática e teoria da História.
Por que a alternativa A está correta?
Na Aprendizagem Baseada em Projetos, os estudantes investigam um problema significativo, mobilizam conhecimentos de diferentes áreas e produzem algo que organiza ou comunica os resultados. O projeto costuma envolver etapas, colaboração, pesquisa e um produto final. Nesse caso, o produto é o mapa do bairro, construído coletivamente.
O mapa não funciona como simples ilustração. Ele registra onde aparecem lixo, enchentes e poluição e permite comparar a distribuição desses problemas. Depois, os estudantes formulam perguntas sobre produção, consumo e meio ambiente. A atividade começa com um conceito, passa pela observação do território e retorna ao debate conceitual com novas questões.
O bairro vira objeto de investigação histórica. Os alunos podem perguntar quando determinada área foi ocupada, quais grupos tiveram acesso às regiões dotadas de saneamento, por que certas moradias foram construídas perto de rios ou depósitos de lixo e quais decisões do poder público moldaram o espaço urbano. História e Ciências trabalham juntas de verdade: cada disciplina ajuda a compreender aspectos diferentes do mesmo problema.
As alternativas incorretas e suas armadilhas
A alternativa B tenta capturar quem se apega à expressão “leitura orientada”. O Estudo Dirigido envolve orientação docente, roteiro e atividades destinadas à compreensão e à sistematização de um conteúdo. Ele poderia incluir perguntas sobre o texto de Henri Acselrad. A sequência descrita, contudo, vai além desse procedimento: os alunos investigam o bairro, produzem um mapa e formulam seus próprios problemas.
A alternativa C usa uma expressão popular nos debates educacionais: Sala de Aula Invertida. Nesse modelo, parte do contato inicial com o conteúdo ocorre antes do encontro em sala, geralmente por meio de textos, vídeos ou outros materiais. O tempo da aula é reservado para discussão, aplicação e resolução de problemas. O enunciado não informa estudo prévio fora da escola. Ao contrário, afirma que houve leitura orientada antes da construção do mapa. “Prévia”, na alternativa, tenta fabricar uma etapa que não aparece na situação.
A alternativa D oferece um nome que não corresponde ao centro da atividade. Pode haver um painel em uma dinâmica coletiva, mas o enunciado descreve investigação territorial e produção de um mapa. Há ainda uma pista linguística: a expressão “garantia de solução”. Nenhuma discussão escolar garante a solução de um problema socioambiental estrutural. Palavras absolutas como “sempre”, “somente”, “necessariamente” e “garantia” costumam denunciar alternativas que extrapolam o enunciado.
O olhar do historiador: racismo ambiental tem história
O conceito de racismo ambiental ganhou forma nos Estados Unidos durante as mobilizações de 1982 em Warren County, na Carolina do Norte. Moradores protestaram contra a instalação de um aterro destinado a receber solo contaminado por PCB em uma área habitada majoritariamente por população negra. O termo é atribuído ao ativista Benjamin Chavis, ligado ao movimento pelos direitos civis.
A discussão mostrou que riscos ambientais não se distribuem por acaso. A localização de aterros, indústrias poluentes, rodovias e áreas sem saneamento acompanha relações de poder, renda e raça. O desastre pode parecer natural; a vulnerabilidade tem endereço, legislação, mercado imobiliário e decisões administrativas.
No Brasil, o debate ganhou força por meio do campo da justiça ambiental. Henri Acselrad, autor citado no texto-base, é uma referência importante nessa discussão. Seus trabalhos analisam como os custos ambientais do desenvolvimento recaem de maneira desigual sobre trabalhadores, comunidades indígenas, quilombolas, moradores de periferias e outros grupos com menor poder político e econômico.
Essa desigualdade tem raízes profundas. A abolição da escravidão, em 13 de maio de 1888, não veio acompanhada de políticas amplas de acesso à terra, moradia, educação ou trabalho protegido para a população liberta. Nas cidades, pobres e negros ocuparam cortiços, morros, subúrbios e várzeas porque as áreas valorizadas eram controladas pelo mercado e pelo poder público.
No Rio de Janeiro, as reformas conduzidas durante a administração do prefeito Pereira Passos, entre 1902 e 1906, abriram avenidas e demoliram numerosas construções no centro. O processo ficou conhecido como “bota-abaixo”. A modernização urbana favoreceu a circulação de mercadorias e a imagem de uma capital civilizada, mas agravou a crise habitacional e deslocou moradores pobres para áreas mais distantes ou precárias.
Quando uma enchente atinge repetidamente as mesmas comunidades, portanto, a pergunta vai além da chuva e de quem construiu a casa: envolve o preço da terra, a oferta de transporte, as obras de drenagem, a remoção de moradias, o acesso ao saneamento e a atuação do Estado. O mapa do risco também é um mapa das escolhas políticas.
Longa duração: o conceito por trás da questão
A expressão longa duração está associada ao historiador francês Fernand Braudel, um dos principais nomes da segunda geração da Escola dos Annales. Braudel propôs observar ritmos históricos diferentes, porque nem tudo muda na mesma velocidade.
O primeiro ritmo é o do acontecimento: uma eleição, uma batalha, uma enchente ou a assinatura de uma lei. É o tempo curto, facilmente percebido e geralmente destacado pelos jornais. O segundo é o da conjuntura: ciclos econômicos, transformações demográficas e tendências políticas que duram anos ou décadas. O terceiro é o da longa duração: estruturas sociais, relações de poder, formas de ocupação do espaço e hábitos que atravessam gerações.
Uma chuva extrema é um acontecimento. Uma fase de crescimento urbano acelerado pode formar uma conjuntura. Já a concentração da propriedade, a segregação racial e a ocupação desigual de áreas sujeitas a deslizamentos e inundações pertencem ao terreno da longa duração.
As estruturas mudam, claro, mas devagar: oferecem resistência e condicionam as possibilidades de cada grupo. A pergunta histórica começa em “quando ocorreu a enchente?” e avança para “como determinadas pessoas foram colocadas, ao longo do tempo, justamente onde a água sobe?”.
Para estudar e ensinar: o que levar dessa questão?
- Metodologias ativas: observe as ações descritas no enunciado. Projeto envolve investigação, etapas, colaboração e produção concreta. Sala de Aula Invertida exige contato prévio com o conteúdo, normalmente fora da aula. Estudo Dirigido concentra-se em roteiro, orientação e sistematização do material estudado.
- Racismo ambiental: revise Warren County, Benjamin Chavis, justiça ambiental e Henri Acselrad. O conceito relaciona desigualdade racial, distribuição territorial e exposição diferenciada a danos ambientais.
- Teoria da História: associe Fernand Braudel às temporalidades do acontecimento, da conjuntura e da longa duração. Bancas podem apresentar uma situação concreta e pedir que o candidato reconheça o ritmo histórico envolvido.
- Ideia de aula: organize um mapa do bairro com córregos, pontos de alagamento, áreas de lixo, equipamentos públicos e linhas de transporte. Depois, compare mapas atuais e antigos, notícias locais e relatos de moradores. O objetivo é reconstruir como o território mudou e perguntar quem recebeu os benefícios e os riscos dessas mudanças.
A enchente bate na mesma porta quando a cidade insiste em conservar o mesmo mapa de desigualdades. Ler esse mapa é tarefa da História; transformá-lo é uma disputa política do presente.