Antes de estudar guerras, acordos, fronteiras e deslocamentos, precisamos esclarecer as palavras usadas para descrever as pessoas e o espaço em disputa. Termos como árabe, judeu, israelense e palestino não são sinônimos. Alguns indicam identidades culturais ou nacionais; outros podem envolver religião, origem familiar ou cidadania. Uma mesma pessoa também pode reunir mais de uma dessas identidades.
Essa distinção é indispensável porque o chamado conflito árabe-israelense não corresponde exatamente ao conflito israelo-palestino. O primeiro envolve, em sentido amplo, Israel e diferentes países e atores árabes. O segundo se concentra na relação entre israelenses e palestinos. As duas histórias estão ligadas, mas não possuem a mesma extensão.
O que significa ser árabe?
Em seu sentido contemporâneo mais comum, árabe é uma identidade linguística e cultural associada principalmente ao uso da língua árabe e a sociedades do Oriente Médio e do norte da África. Não se trata de uma raça única, nem de uma religião específica. O mundo árabe reúne populações com histórias, costumes, posições políticas e experiências nacionais muito diferentes.
Também não devemos usar árabe como sinônimo de muçulmano. A maioria dos árabes segue o islamismo, mas existem árabes cristãos e integrantes de outras comunidades religiosas. Ao mesmo tempo, a maior parte dos muçulmanos do mundo não é árabe. Países populosos de maioria muçulmana, como Indonésia, Paquistão, Turquia, e o Irã, por exemplo, não são países árabes.
A palavra pode aparecer em diferentes níveis de identificação. Uma pessoa pode se considerar árabe e, ao mesmo tempo, egípcia, libanesa, síria, jordaniana ou palestina. A identidade árabe mais ampla não elimina as identidades nacionais particulares.
O que significa ser judeu?
Judeu é um termo que pode indicar pertencimento religioso, histórico, cultural, familiar e comunitário. Por isso, o judaísmo não deve ser entendido apenas como uma religião praticada individualmente. A identidade judaica também está ligada a tradições, memórias coletivas e vínculos de ancestralidade. Há judeus religiosos e não religiosos, assim como diferentes correntes religiosas e variadas tradições culturais judaicas.
As comunidades judaicas viveram durante muitos séculos em regiões distintas. Desenvolveram experiências próprias na Europa, no norte da África, no Oriente Médio e em outras partes do mundo. Essa diversidade ajuda a explicar por que não existe uma única maneira de ser judeu.
Também é importante não confundir judeu com israelense. Nem todos os judeus são cidadãos de Israel, pois existem comunidades judaicas em muitos países. Da mesma forma, nem todos os cidadãos israelenses são judeus.
Israelense: cidadania e identidade nacional
Israelense é, em primeiro lugar, a designação relacionada ao Estado de Israel e à sua cidadania. A maioria dos israelenses é judia, mas o país também possui cidadãos árabes, entre outros grupos. Esses cidadãos podem ser muçulmanos, cristãos, drusos ou integrantes de outras comunidades.
As formas de identificação dentro de Israel variam. Um cidadão árabe de Israel pode se apresentar como árabe israelense, palestino cidadão de Israel ou combinar essas referências de outra maneira. As escolhas dependem de experiências familiares, políticas e sociais. Isso mostra que a cidadania registrada pelo Estado e a identidade assumida pela pessoa não são necessariamente a mesma coisa.
Uma categoria jurídica responde à pergunta “de que Estado esta pessoa é cidadã?”. Uma identidade coletiva responde a perguntas como “a que povo, história ou cultura ela sente pertencer?”.
Quem são os palestinos?
Palestino designa uma identidade nacional ligada à Palestina. Os palestinos são majoritariamente árabes e muçulmanos, mas também existem palestinos cristãos e integrantes de outras comunidades. Portanto, a identidade palestina não é definida exclusivamente pela religião.
Os palestinos vivem em diferentes situações territoriais e jurídicas. Há palestinos na Cisjordânia, na Faixa de Gaza, em Jerusalém Oriental, em Israel e em diversos outros países. Muitos pertencem a famílias que foram deslocadas ou deixaram suas localidades de origem em diferentes momentos do conflito. As experiências de quem vive sob administrações, sistemas jurídicos ou cidadanias distintas podem variar profundamente, ainda que exista uma identidade nacional compartilhada.
Nem todo árabe é palestino. Um marroquino, um iraquiano e um palestino podem compartilhar a língua árabe e alguns elementos culturais, mas pertencem a sociedades e trajetórias nacionais diferentes. Do mesmo modo, não se deve reduzir os palestinos a organizações políticas ou armadas específicas. Uma população é sempre mais ampla e diversa que qualquer grupo que afirme representá-la.
O que é o sionismo?
Sionismo é o nome dado ao movimento nacional judaico que defendeu a criação de um lar nacional, posteriormente de um Estado, para o povo judeu na terra historicamente associada à antiga presença judaica. O movimento surgiu em um contexto europeu marcado pelo nacionalismo moderno, pela discriminação e pela perseguição aos judeus.
Assim como outros movimentos políticos, o sionismo nunca foi inteiramente uniforme. Suas correntes divergiram sobre religião, organização econômica, fronteiras, relações com os habitantes árabes e caminhos para alcançar seus objetivos. Atualmente, a palavra também é empregada de maneiras diferentes: pode indicar apoio à existência de Israel como Estado judeu, adesão a uma corrente ideológica específica ou defesa de determinadas políticas.
Por essa razão, é necessário observar o contexto em que o termo aparece. Sionismo, judaísmo, governo israelense e população judaica não são conceitos equivalentes. Criticar uma política do governo de Israel não significa necessariamente rejeitar a existência do país. Da mesma forma, responsabilizar todos os judeus por decisões de Israel é uma generalização indevida e pode reproduzir preconceitos antissemitas.
O que queremos dizer quando falamos em Palestina?
Palestina é uma palavra com sentidos geográficos, históricos, nacionais e políticos. Em textos históricos, pode designar uma região do Mediterrâneo oriental cujos limites e formas de administração mudaram ao longo do tempo. Não se deve imaginar que ela sempre tenha correspondido aos territórios atuais.
No presente, o termo também aparece associado ao povo palestino e aos territórios palestinos. Cada uso exige atenção. Expressões como Palestina histórica, por exemplo, costumam se referir de maneira geral ao espaço que hoje abrange Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, mas podem carregar diferentes interpretações políticas.
Os nomes dados a um território nunca são completamente neutros. Eles podem expressar memória, pertencimento, reivindicação nacional ou posição política. Para estudar o tema com rigor, convém perguntar:
- O termo está sendo usado em sentido geográfico, histórico ou político?
- O texto trata de qual período?
- Quais fronteiras ou áreas estão incluídas?
- Quem emprega a expressão e com qual finalidade?
Dois conflitos relacionados, mas não idênticos
O conflito árabe-israelense é a expressão mais ampla. Ela abrange confrontos, tensões e negociações envolvendo Israel, países árabes e outros atores da região. Egito, Jordânia, Síria e Líbano, por exemplo, aparecem nessa história como Estados com interesses próprios. Por isso, não é correto tratar o mundo árabe como um bloco único e permanente.
O conflito israelo-palestino, por sua vez, concentra-se nas relações entre israelenses e palestinos. Nele aparecem questões como território, autodeterminação, segurança, reconhecimento, deslocamento, refugiados e controle de áreas reivindicadas por ambos os povos. Os acontecimentos que transformaram essas disputas serão estudados nos capítulos seguintes.
A questão palestina tornou-se o núcleo principal do conflito mais amplo porque permanece sem uma solução política definitiva e afeta diretamente milhões de pessoas. Ainda assim, nem toda disputa entre Israel e um ator árabe decorre apenas dela. Estados da região possuem cálculos próprios de segurança, alianças, rivalidades e interesses territoriais.
Em resumo
Árabe é principalmente uma identidade linguística e cultural; judeu é um pertencimento religioso, histórico e comunitário; israelense indica cidadania e vínculo com o Estado de Israel; palestino é uma identidade nacional ligada à Palestina; sionismo é um movimento nacional judaico diversificado; e Palestina é um termo cujo significado depende do período e do contexto. Compreender essas diferenças evita generalizações e permite perceber por que o conflito árabe-israelense é mais amplo que o conflito israelo-palestino, embora a questão palestina tenha se tornado o seu centro mais persistente.