Sinopse: Durante a Primeira Guerra Mundial, dois jovens soldados britânicos, Schofield e Blake, recebem a missão aparentemente impossível de atravessar território inimigo para entregar uma mensagem que pode salvar a vida de centenas de soldados, incluindo o irmão de Blake. A narrativa acompanha em tempo quase real a jornada dos dois, destacando o horror das trincheiras, a tensão constante do front e o impacto humano do conflito.
Gênero: Guerra, Drama
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Guerra, memória e espetáculo em “1917”
“1917”, dirigido por Sam Mendes, insere-se na tradição dos filmes de guerra que buscam conciliar rigor histórico com uma experiência sensorial intensa. Ambientado na Primeira Guerra Mundial, o filme acompanha dois soldados britânicos encarregados de entregar uma mensagem que pode salvar centenas de vidas. A opção formal pelo falso plano-sequência contínuo não é apenas um artifício estético: ela estrutura a percepção do espectador sobre o conflito, aproximando-o da experiência de fluxo ininterrupto, exaustivo e desorientador que marcou a guerra de trincheiras. Ao mesmo tempo, essa escolha levanta questões sobre o equilíbrio entre imersão visual e reflexão histórica.
Do ponto de vista histórico, “1917” trabalha com um recorte muito específico: o front ocidental em um momento de transição estratégica, quando a guerra de posições começa a dar sinais de desgaste e a mobilidade volta a ganhar relevância. O filme evoca com precisão elementos materiais do conflito, como a arquitetura das trincheiras, o uso do arame farpado, a presença constante da lama, dos cadáveres e da destruição industrializada. Esses detalhes reforçam o caráter mecanizado da violência, típico da Primeira Guerra, em que a tecnologia – metralhadoras, artilharia pesada, aviões de reconhecimento – redefine a escala da morte. Ainda assim, Mendes opta por uma narrativa concentrada na jornada individual, o que reduz a visibilidade de dimensões políticas mais amplas, como o imperialismo, as tensões de classe dentro dos exércitos e o impacto do conflito nas populações civis.
Representação da Primeira Guerra e cultura da memória
“1917” dialoga com a tradição memorialística inaugurada por obras como Sem Novidade no Front e, em outra chave, pelos poemas de Wilfred Owen e Siegfried Sassoon. A ênfase na experiência subjetiva do soldado raso, exposto ao absurdo da guerra, aproxima o filme de uma perspectiva desiludida, que contrasta com narrativas heroicas mais convencionais. No entanto, a construção visual altamente coreografada, com movimentos de câmera fluidos e composições pictóricas, tende a estetizar a destruição. Essa tensão entre denúncia e espetáculo é central para compreender o lugar de “1917” na cultura da memória da Primeira Guerra: ele reafirma o trauma e o horror, mas o faz por meio de uma forma cinematográfica que, inevitavelmente, transforma a catástrofe em experiência audiovisual envolvente.
Do ponto de vista cultural, o filme funciona como um dispositivo de atualização da memória da Primeira Guerra para o público do século XXI, habituado a narrativas de guerra mais fragmentadas e cínicas, como em Falcão Negro em Perigo ou Guerra ao Terror. Ao escolher uma missão relativamente simples, quase minimalista, Mendes desloca o foco da geopolítica para a ética do dever, da solidariedade e do sacrifício individual. Isso ressoa com discursos contemporâneos sobre o soldado como figura de resiliência e profissionalismo, mais do que como instrumento de projetos imperialistas. A consequência é uma representação que, embora crítica em relação ao sofrimento humano, é menos incisiva quanto às estruturas de poder que produziram o conflito.
Historicamente, “1917” pode ser lido como parte de um movimento mais amplo de reinterpretação da Primeira Guerra, que a apresenta menos como “guerra dos generais incompetentes” e mais como experiência-limite da modernidade, na qual tecnologia, burocracia militar e nacionalismos em choque criam um sistema de violência quase autônomo, difícil de ser reduzido a culpados individuais.
Socialmente, o filme toca apenas de forma tangencial em questões como a diversidade dos exércitos coloniais e o impacto da guerra nas sociedades civis europeias e coloniais. Há breves aparições de soldados de origem colonial, mas sem desenvolvimento dramático significativo, o que reflete uma limitação recorrente no cinema de guerra anglo-americano: a centralidade quase exclusiva da experiência britânica ou ocidental branca. Em contraste, a figura da jovem francesa e da criança escondidas entre ruínas funciona como lembrete da vulnerabilidade civil, porém sem explorar as dinâmicas de ocupação, fome e deslocamento em larga escala que marcaram o período. Assim, “1917” oferece um retrato intenso e tecnicamente sofisticado da experiência de combate, mas permanece relativamente contido ao abordar as dimensões sociais e políticas mais amplas do conflito.
Em síntese, “1917” é um filme que se destaca pela ambição formal e pela capacidade de traduzir, em termos cinematográficos, a sensação de urgência e exaustão da guerra de trincheiras. Sua contribuição para a representação da Primeira Guerra reside menos na originalidade temática e mais na forma como articula tecnologia de filmagem, design de produção e som para recriar um ambiente histórico específico. Ao privilegiar a jornada individual e o ponto de vista imersivo, o filme reforça uma memória da guerra centrada na experiência do soldado, ao mesmo tempo em que deixa em segundo plano as estruturas históricas que tornaram esse conflito possível. Essa escolha o coloca em uma posição ambígua: como obra de cinema, é rigoroso e envolvente; como reflexão histórica, é potente na evocação sensorial, mas limitado na problematização crítica das causas e consequências da Primeira Guerra Mundial.
Ficha técnica
- Direção
- Sam Mendes
- Roteiro
- Sam Mendes, Krysty Wilson-Cairns
- Elenco
- George MacKay, Dean-Charles Chapman, Mark Strong, Andrew Scott, Richard Madden, Colin Firth, Benedict Cumberbatch
- Fotografia
- Roger Deakins
- Montagem
- Lee Smith
- Trilha sonora
- Thomas Newman
- Produção
- Neal Street Productions, DreamWorks Pictures, Reliance Entertainment, New Republic Pictures
- Distribuição
- Universal Pictures (internacional), Entertainment One (Reino Unido)