30/10/2026 · Concursos e Docência

Concurso IFMG 2026: vagas para professor de História

Edital 1077/2026: inscrições até 13 de novembro, salário de R$ 7.589,19 a R$ 14.945,96 e prova em 24 de janeiro

O Instituto Federal de Minas Gerais abriu concurso para professores efetivos, e História está na lista. As vagas são para os campi de Ipatinga, João Monlevade e Bom Despacho, com 40 horas semanais e dedicação exclusiva. As inscrições vão até 13 de novembro, às 18h, e as provas objetiva e dissertativa estão marcadas para 24 de janeiro de 2027. Os dados completos estão na ficha acima, com o link do edital.

Vale lembrar o que é um professor de Instituto Federal. A carreira se chama EBTT, Ensino Básico, Técnico e Tecnológico, e o edital diz onde esse professor vai atuar: no ensino técnico de nível médio, no ensino superior e na pós-graduação, com ensino, pesquisa e extensão. Na prática, quem passa dá aula de História para adolescentes de cursos técnicos e, ao mesmo tempo, pode orientar projetos e trabalhar na graduação. É uma das carreiras mais completas para quem gosta de sala de aula e de pesquisa.

Mas o mais interessante deste edital não está na ficha. Está no conteúdo. Lido com atenção, ele mostra que professor de História o IFMG quer contratar.

O que a prova objetiva cobra

São 18 temas, da Grécia antiga à Nova República. À primeira vista, é o programa clássico:

  • Antiguidade e Idade Média: as cidades-Estado gregas; Roma e a formação do Império; Idade Média e feudalismo.
  • Idade Moderna: as Reformas Religiosas; a Expansão Marítima; os povos originários da América; a América Portuguesa; o Iluminismo e as revoluções.
  • Mundo contemporâneo: a Revolução Industrial; o imperialismo no século XIX; o entreguerras, a crise de 1929 e o nazifascismo; a Segunda Guerra Mundial.
  • Brasil: da independência à construção do Império; a Primeira República; dos anos 1930 ao golpe de 1964; a ditadura militar; a Nova República.
  • África: reinos e impérios do continente africano.

Repare no último item. A África aparece como tema próprio, com seus reinos e impérios, e não só como ponto de partida do tráfico. Isso não é detalhe: desde a Lei 10.639, de 2003, e a Lei 11.645, de 2008, a história e a cultura afro-brasileira e indígena são obrigatórias na educação básica. Um concurso para formar professores de escola técnica cobra o que esse professor vai ter de ensinar.

A dissertação e a aula: onde o edital mostra a cara

Os temas da prova dissertativa e da prova de desempenho didático, a aula diante da banca, são mais específicos:

  • Cultura, vida cotidiana e sociedade na Roma Antiga.
  • Religião e relações de gênero na Europa medieval.
  • Cultura e resistência dos povos indígenas no Brasil colonial.
  • Povos africanos no Brasil colonial: trabalho, cultura e luta pela liberdade.
  • Antigo sistema colonial e antigo regime nos trópicos.
  • Era das revoluções e independências hispano-americanas.
  • Moderados, regressistas e a ordem imperial brasileira.
  • A China no contexto do imperialismo no século XIX.
  • Antissemitismo e ascensão do nazismo na Alemanha.
  • O processo de abertura política no Brasil nas décadas de 1970 e 1980.

Três coisas saltam aos olhos. A primeira é o cotidiano, o gênero e a resistência: indígenas e africanos aparecem como sujeitos, que trabalham, criam cultura e lutam, e não como objetos da colonização. A segunda é a China. Estudar o imperialismo do século XIX pelo lado de quem o sofreu muda o ponto de vista de uma aula inteira. A terceira é a mais sofisticada, e merece um parágrafo à parte.

"Antigo sistema colonial e antigo regime nos trópicos" não é um tema, é um debate. De um lado está Fernando Novais, que nos anos 1970 explicou a colônia pela lógica da exploração: o Brasil existia para enriquecer a metrópole, e o exclusivo comercial era a peça central. Do outro lado está a historiografia reunida em O Antigo Regime nos trópicos, de João Fragoso, Maria Fernanda Bicalho e Maria de Fátima Gouvêa, que olhou para dentro da colônia: elites locais, negociação com a Coroa, riqueza que ficava aqui. Os dois livros estão na bibliografia do edital. A banca não quer saber qual dos dois o candidato decorou. Quer ver se ele sabe pôr os dois para conversar.

O tema sobre moderados e regressistas segue a mesma linha, com O tempo Saquarema, de Ilmar Rohloff de Mattos, e um estudo sobre os liberais em Minas Gerais entre 1830 e 1834. Um concurso mineiro que pede História de Minas na bibliografia está dizendo alguma coisa.

O que a bibliografia diz sobre a banca

A lista de referências é curta e muito bem escolhida. Além de Novais, Fragoso e Mattos, estão lá John Thornton, sobre a África e os africanos no mundo atlântico; Manuela Carneiro da Cunha, com a História dos índios no Brasil; Wlamyra Albuquerque e Walter Fraga Filho, com Uma história do negro no Brasil; Eric Hobsbawm, com A era das revoluções; e Hannah Arendt, com Origens do totalitarismo. É historiografia de primeira linha, boa parte dela brasileira e recente. Quem estudou só por resumo vai sentir a diferença na dissertação.

Para quem estuda e ensina

Se você vai fazer este concurso, comece pelos dez temas da dissertação e da aula. Eles valem duas vezes: caem por escrito e podem ser o tema da sua aula diante da banca. Para cada um, pense em três perguntas: o que a historiografia diz, qual é o debate e como eu ensinaria isso a um aluno de 16 anos de um curso técnico.

Dois desses temas já têm texto aqui no site. Sobre o antissemitismo e a ascensão do nazismo, leia Como começou a perseguição aos judeus na Alemanha nazista. Sobre a abertura política e a Nova República, Democracia no Brasil: do voto de cabresto à urna eletrônica ajuda a ver o processo de longe.

E se você não vai fazer o concurso, o edital ainda serve: é um bom retrato do que se espera hoje de um professor de História. Menos datas soltas, mais sujeitos, mais debate e mais mundo além da Europa.


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